Acredita que eu cheguei a acreditar que você era o cara? E antes mesmo de perceber que algo aconteceu, você tinha ido embora. Sem despedidas ou justificativas – só a tua falta ficou. Bom, a tua bagunça também, além do vazio de chegar em casa e não ter ninguém pra me ouvir falar sem parar sobre o meu dia.

E foi essa falta que me fez lidar com a tua bagunça. Tive que encarar o meu maior medo: enfrentar o mundo sozinha. Você por acaso achou que ia ser simples encontrar um outro lugar sem ser dentro do meu coração? E assim fiquei com todas as perguntas sem respostas e com tudo o que não foi dito – logo eu que pensei que o mundo era pesado demais.

Acredita que eu cheguei a acreditar que eu era fraca? Precisei de todo esse choque para finalmente me responsabilizar pela forma como eu me trato. Não é o mundo que é pesado demais, mas as minhas cobranças e mania de planejar anos luz na frente. O seu adeus me fez perceber que tenho toda a força que eu preciso ter, eu só estava investindo no lugar errado.

Acredita que eu cheguei a acreditar que eu devia tentar mais? E assim engoli a minha dignidade e investi no meu tom sincero pra tentar te mostrar o que nem estava mais lá para ser visto. Achei que era tudo uma questão de esclarecimento – mas vi você sorrindo pra vida e percebi que fazia tempo que não via o teu sorriso brilhar tanto assim.

Depois de sobreviver à algumas ressacas e crises de abstinências de você, precisei me recuperar sabe? Um alguém sem dignidade é ninguém. E já são tantos ninguéns espalhados pelo mundo, não é? Eu só não quis ser mais uma sendo levada pelo drama e obviedade. Eu não quis mais ser aquela que se deixa levar pelo teu sorriso fácil.

Acredita que eu cheguei a acreditar em desistir de amar? Mas que graça a vida teria? Sem amor, como eu poderia desejar que você continue sorrindo mesmo que não seja pra mim? Se eu não amasse mais, como eu poderia acreditar que mesmo o mundo sendo pesado existe um equilíbrio contraditório? Não dá, entende? Eu me recuso a acreditar que eu sou inamável.

Porque eu não sou. E se a tua chegada me fez acreditar que a vida compartilhada poderia ser mais leve, a tua partida me lembrou que amor próprio é fundamental para seguir em frente. Então vai, continua sendo o cara e cativando a vida com o teu sorriso. Até porque agora eu preciso acreditar no meu.

Aquela que fez da escrita o próprio divã. Crítica da vida alheia nas horas vagas. Curte um bom texto, vinho e jogar conversa fora. É viciada em paçoca e risadas. Tem coração bobo, cabelo pintado e desastres acumulados na cozinha. Atualmente mora em Sydney – Austrália.

4 comments on “Acredita que eu cheguei a acreditar?”

  1. Construir uma casa, e não uma tenda…porque casa traz o sentido de habitar e não apenas circular, espoliar ou ficar ali botando defeito, achando que paisagens naturais são aberrações da natureza. A maioria das relações modernas são assim: projeto de tendas. Os próprios pais trazem para a educação dos filhos a idéia de profissão, independência, viagens, várias experiências primeiro… antes de ser casa. Se experiência sexual aos montes, fosse sinônimo de relações afetivas saudáveis, prostitutas dariam palestras de como ser feliz num relacionamento. Ou seja, a maioria de nós humanos pegou a via errada. A via das tendas, como ciganos sem pátria no coração. E ser casa? Ter alicerces, bases, pomar, jardim, aconchego, tudo o que faz da casa um lar. Aonde, mesmo em solo estrangeiro, podemos morar, habitar. Habitar traz consciência cívica, amor ao local, respeito, cuidado… Não aceitamos bagunça (desordem estranha) numa casa, apenas aquele revirar saudável de almofadas no chão porque passou o dia assistindo televisão… Ou de louças na pia, porque fez brigadeiro pra comer junto na panela e deixou pra lavar depois (é uma desordem temporária, será limpada cedo ou tarde).

    A pergunta a ser feita, nas relações de cunho amoroso, será sempre essa: sou tenda ou casa? O outro é tenda, ou casa na minha vida?

    Se o outro era casa, e o perdemos…não vejo indignidade ou falta de amor próprio brigarmos pela pessoa. Já brigar por quem demonstrou querer ser apenas tenda, algo passageiro, sem intenção nenhuma de habitar, ae sim acho desperdício de amor, cuidado, afeto.

    Acredite sempre moça, que você merece o melhor.
    E não deixa ninguém te destituir disso.
    O amor próprio está tanto em brigar por quem realmente valha a pena, quanto deixar ir quem não tinha intenção de ficar, habitar, cuidar.

    =)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *