Dia desses uma amiga pediu pra eu desabafar. E a verdade é que eu não sei desabafar. Provavelmente ela percebeu que algo não ia bem pelo tom da minha voz nos áudios gigantescos – ou pela falta deles. Mas veja bem, eu nunca desabafo. Eu tenho essa mania de deixar tudo trancado aqui comigo, num lugar seguro e onde ninguém vai conseguir chegar. O que carrego comigo, é só meu.

E é por isso que eu não sei desabafar. Tenho medo de transformar em verdade o que, por enquanto, é só coisa da minha cabeça. E é por isso que eu carrego tanto peso sozinha. Não quero que ninguém tenha que carregar peso meu. O que é meu, é meu. O que levo comigo anda tão bem guardado que às vezes eu até consigo ignorar. Volta e meia deixo tudo isso longe dos olhos e finjo que não existe. E quase sempre consigo.

Sim, eu coloco a sujeira embaixo do meu próprio tapete. Conversar sobre o que se passa na minha cabeça não é algo simples. Na minha mente brilhante eu guardo tanta bagunça, que eu passaria o resto da vida fazendo faxina e, ainda assim, não seria suficiente. Eu não desabafo, simples assim. Eu preciso de tempo para entender a minha própria confusão. E falar só faz eu me sentir pressionada pra ter tudo resolvido antes de segunda-feira.

Fonte: We Heart It
Fonte: We Heart It

Eu gosto de discutir pontos de vista, de rir quando é absurdo e de sentir quando é real. Mas isso não me faz ser a pessoa mais aberta pra falar da vida. Inúmeros pontos me incomodam e me fazem ficar sem palavras. Não tenho texto pronto para falar sobre o que acontece comigo. Não sei colocar pra fora o que por dentro anda tão confuso. Como faz pra transformar sentimentos em fala? Sinto que para sempre faltarão expressões e que não existem palavras com força tamanha para representarem o meu desabafo.

É por isso que eu nao sei desabafar. Talvez por sentir muito. E cada detalhe. E sempre. É verdade, eu gosto de manter uma distância segura das pessoas. Pode ser a minha amiga de infância. Pode ser o amor da minha vida. Estar perto demais nunca é seguro. Eu sei que seguir assim me leva cada dia mais para um caminho solitário. E tem dias que é difícil pra caramba seguir em frente. Mas veja bem, eu posso até carregar tudo sozinha, mas me sinto aliviada por conseguir lidar com o peso das minhas próprias escolhas.

Uma louca que fez da escrita o próprio divã. Crítica da vida alheia nas horas vagas. Curte um bom texto, vinho e jogar conversa fora. É viciada em paçoca e risadas. Tem coração bobo, cabelo pintado e desastres acumulados na cozinha. Atualmente mora em Sydney – Austrália.

34 comments on “Eu não sei desabafar”

  1. esse texto me definiu DEMAIS! Sou exatamente como voce. É aquela coisa, a gente nao quer jogar o nosso peso nos outros – e ainda mais, sentimos que nossa tristeza nao merece ser escutada. To contigo <3 por isso, valorizo muito as amizades que estao comigo e entendem esse meu lado, que sabem dizer ~ok, ok, vai ficar td bem~ msm sabendo que nao, haha

  2. Menina, que texto maravilhoso! Representa muito a minha vida. Tenho esses mesmos sentimentos de guardar tudo o que sinto pra mim mesma, pois eu acho que vou incomodar se contar meus pensamentos pra alguém. Sou o tipo de pessoa que guarda tudo pra mim também.

  3. Nossa, muito lindo teu texto <3 Eu já sou o contrário de ti… desabafo muito, mas apenas com quem confio (meu namorado, que é meu melhor amigo). Às vezes é bom ter esses momentos, mas nem sempre, pois as pessoas não precisam saber sempre do que acontece em sua vida. Sei que podemos ter nossos momentos de bad, mas temos que parecer fortes para nos sentirmos assim e não nos deixarmos abalar.

    • Oii Amanda, seja bem vinda ao blog. Nunca pensei em como seria o outro lado.. de desabafar muito. Acho que voce ta certa, sempre bom nao colocar tudo pra fora. HAHAHAHA. Obrigada por participar. Espero te ver aqui mais vezes. Beijos

  4. Nossa, eu sou muito assim! Mas tem uma pessoa que eu consigo desabafar sobre quase tudo. Não sei o que acontece exatamente, mas as vezes não acho importante, penso que não ajudar em nada e até mesmo esqueço de falar sobre, prefiro ignorar porque no fim vai ficar tudo bem e sempre fica mesmo.
    Blog da Vicky

  5. Eu também tento guardar as coisas pra mim, mas sabe, as vezes a gente fica tão cheia, que as palavras vão nos consumindo por dentro… Entao nada mais justo do que aliviar esse peso interior do que jogando as palavras pra fora. Muitas vezes nao queremos respostas pras nossas dúvidas, apenas queremos um ouvinte… É por isso que inúmeras vezes eu desabafo no papel. Ele aceita meus sentimentos, minhas dúvidas e me ajuda a colocar as ideias em ordem…

  6. Eu já fui muito mais aberta com relação aos assuntos da minha vida particular. Conversava com amigas abertamente, ouvia conselhos, todas essas coisas… Mas depois de tanto me ferrar, seja por ouvir os outros ou por histórias que eu não queria que vazassem tenham se espalhado aos quatro ventos, muitas vezes diferentes da realidade, passei a me tornar mais como essa pessoa que você descreveu aí em cima. A única pessoa com quem eu desabafo é o meu marido, mas estamos juntos há pouco mais de cinco anos. E mesmo assim ainda demoro; prefiro resolver a minha confusão um pouco antes de colocar pra fora.
    Às vezes, desabafar é preciso. Mas antes trancafiar tudo à sete chaves do que relatar sentimentos à pessoas erradas, que não vão entendê-los.

  7. Antigamente eu não sabia desabafar não, hoje em dia eu tenho pessoas maravilhosas que confio muito e então me sinto mais segura para contar minhas ansiedades. É como se mesmo sabendo que elas não tem as respostas, só elas ouvirem e me abraçarem já faz bem

    • Oii Sii. Obrigada por ser tao presente aqui no blog. Eu realmente acho que as vezes ouvir que tudo vai ficar bem seria suficiente.. mas nao consigo apenas falar. Nao parece simples pra mim. HAHAHAH. Bom que voce consegue. Beijos

  8. Uau Rebeca.
    Se eu lesse seu post a alguns anos atrás super concordaria com você, estaríamos na mesma situação.
    Mas esse ano comecei a frequentar uma psicologa, isso me ajudou muito, pois eu era tão tímido que quase não falava.
    Ela me incentivou muito e agora não tenho mais problema com isso haha

  9. Amei o texto! Eu só consigo guardar as coisas pra mim até um certo ponto. Chega uma hora que o peso fica tão grande dentro de mim que eu não consigo mais guardar, aí eu tenho que correr pra desabafar, geralmente com a minha mãe ou meu irmão mais novo.

  10. Rebeca, me vi em tantos escritos desse seu post que cheguei a olhar por cima do ombro para garantir que você não tem uma câmera aqui em casa rsrsrsrs Eu também gosto de manter uma distância segura das pessoas, mas nem sempre funciona, ainda assim elas decepcionam, mas também surpreendem e gosto disso, é o meu Natal privado durante o ano todo, aquela ansiedade em saber que mesmo sem saber, a pessoa está sendo estudada, digo, observada por mim :-) Nossas escolhas são nossas, então parabéns por se sentir aliviada em carregar o peso de cada uma delas, isso é só para super-heróis, afinal, o resto dos humanos conseguem viver ( e muito bem, ainda que por vezes injustamente ) distribuindo esse peso por aí. Aplausos para esse seu texto, porque só dizer que amei não é o suficiente rsrsrsrs Beijos!

  11. Antigamente eu era muito mais aberta, mas tomei tanto na cabeça que agora eu guardo muita coisa pra mim mesma, mas por dois motivos.
    O primeiro é que as pessoas não se importam com os seus problemas, elas só querem ter certeza de que não são as únicas que tem dificuldades na vida.
    O segundo é que eu não quero conselhos de como viver a minha vida, e isso as pessoas são mestres em fazer: resolver o problema dos outros, mas não o de si próprias…
    Só tome cuidado porque carregar peso sozinha não faz bem pra saúde…

    • Oii Eliana, bom te ver mais animada com o blog. Nunca tinha parado pra pensar que as pessoas podem querer saber dos teus problemas so para aliviar os problemas que elas ja tem. UAL acaba sendo uma forma mais fria ainda de enxergar o proximo. Gostei de ser desafiada a pensar diferente do que eu costumava pensar. Obrigada por agregar. Beijos

  12. São nesses momentos que nós vemos a pobreza da comunicação e a pobreza da língua, para tentar explicar a nossa condição humana. Por isso, tenho dificuldade de fazer terapia. Um abraço!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *