Eu gosto de pensar no que poderia ter sido e não foi. Mesmo que não adiante ou não mude o que aconteceu. Eu gosto dessa brincadeira de me remoer pelo que não tem volta. É assim que a minha cabeça me obriga a seguir em frente – até eu cansar. E somente quando penso no que nunca vamos significar, é que eu entendo o quanto um quase incomoda.

Quase todo dia eu tento não pensar nesse quase. Toda essa situação meio torta me faz sentir mais besta do que certa. É que um quase não é nada. Quase o que? Nada foi feito, mas tem esse bloco entre a gente. Nada foi dito, mas tem esse entendimento mútuo que carregamos em silêncio. Maldito silêncio. Então me diz, se eu gritar você ainda me ouviria?

Eu sei que sou a primeira a calar quando a vida pressiona. Mas preciso confessar que esse silêncio educado que a gente carrega me incomoda demais. Esses quases, olhares e tudo o que poderia ser dito e não foi, só me fazem continuar remoendo as minhas próprias escolhas. Então me diz, se fui eu quem correu colina abaixo, por que ainda penso em ti?

Foto – Arquivo pessoal

Depois de todas essas voltas que o mundo deu, como pode você ainda se fazer presente em meus pensamentos? Não tem arrependimento, juro. A vida seguiu como eu quis, parabéns pra mim. Mas então me diz, por que eu ainda insisto nesse drama? O que posso fazer se mesmo depois de tudo você ainda agrada o meu ego?

Eu gosto de pensar em você. Não é só ego, drama ou carência. Dane-se o que poderia ter sido e não foi. Até porque pra mim você foi. E é por isso que eu te guardo com carinho e carrego comigo todos os ensinamentos que a tua bagunça me trouxe. Eu gosto de pensar que de uma forma muito debochada a vida fez de nós quem deveríamos ser.

Aquela que fez da escrita o próprio divã. Crítica da vida alheia nas horas vagas. Curte um bom texto, vinho e jogar conversa fora. É viciada em paçoca e risadas. Tem coração bobo, cabelo pintado e desastres acumulados na cozinha. Atualmente mora em Sydney – Austrália.

4 comments on “O que poderia ter sido e não foi”

  1. Uma palavra tão pequena é torturante: QUASE.
    Quase namoramos, quase viajamos, quase nos casamos, mas foi tudo quase! E quase, quase sempre, é só um grande nada!

    Não sei se fez sentido meu pequeno devaneio acima rs

  2. A condição humana é algo difícil. Precisamos de corda e de vento. Nos querer alto com o vento soprando é só uma parte, mas há que se ter as cordas que nos mantenha em equilíbrio com o chão (até mesmo pássaros aprendem a voar primeiro lidando com o chão, alimento vem do chão)… O quase é a falta da corda. O vôo até que acontece, mas não chega a nada devido essa lacuna de algo que o mantenha firme, equilibrado, constante dentro da inconstância do vento. É como diz aquelas palavras antigas, o vento sopra pra onde quer…A corda justifica o vento, o vento justifica a corda. Uma criança com uma pipa sem linha, é apenas uma criança com uma quase diversão garantida… um experienciado na arte do voo sempre saberá de antemão aonde uma pipa sem linha, ou avião sem asa, foguete sem combustível, chegará. A corda não é a prisão, e nem o vento a total liberdade, ambos precisam coexistir para algo ser devidamente desfrutado. Relações focadas apenas nas cordas, perdem a subjetividade rica do vento; relações focadas apenas no vento, caem no perigo da dureza do chão, esses quases que acontecem devido falta de contato com o próprio sentimento, vontade, objetivos, a nossa corda, o nosso alimento.

    Pela sua conclusão, a experiência que passou tem mais do que se orgulhar, do que lamentar. E é isso o que mais importa na vida.
    =)

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