Parece discurso de vó acompanhado com biscoitinhos de feira e chá, mas uma vez Tolstói falou que tempo e paciência são os mais fortes guerreiros. Ou algo assim. É claro que esta afirmação diz muito sobre a vida dele, conturbada e com inúmeros desassossegos pessoais, mas colocando a melancolia e a tal vó de canto, é confortável pensar desse jeito e sempre considerar estes dois elementos como essenciais.

Mas vá, cá entre nós, pede paciência para um fumante sem cigarro, para uma mulher em trabalho de parto ou para uma criança antes de receber um presente. Ou talvez, de uma forma um pouco mais mórbida, pede tempo para quem não o tem mais.

É complicado, mas no discurso literário tudo é lindo, funcional e lógico. Mas ali, no dia-a-dia testamos tudo o que a literatura nos traz e, com certeza, tempo e paciência não se sobressaem neste teste. Temos que relatar este bug: estes testes são contraditórios. Isto porque com o tempo/experiência você aprende a ser paciente e consequentemente se tornando paciente, você respeita o tempo e seus limites.

Mesmo assim estas palavras não se encaixam em frases de incentivo, algo para ser utilizado como consolo pelas avós. Afinal de contas, você nunca saberá se conseguiu. Tempo e paciência não são moedas, não é possível medir e tão pouco comprar. Se fosse assim a avó ia nos trazer além dos biscoitinhos, uma fatia de paciência e uma jarra de tempo.

A meta planejada pelas pessoas não é “ser paciente e acreditar no poder do tempo”, a sociedade não tem tempo pra isso. As metas são trocar de carro, pagar a prestação da casa e o cartão de crédito. E de quebra, se sobrar um tempo daquele do qual nós não temos, conseguir ir à praia no final de semana.

Mesmo que os discursos defendidos pela literatura se façam presentes diariamente, até para os que não percebem, é improvável que se vejam letrinhas piscando e formulando frases chaves de grandes obras. Não é assim que a literatura vem até nós. Não é a toa que bons filmes vieram de grandes livros.

Sendo assim podemos dizer que Tolstói era um cara agoniado? Será que este chavão veio quando ele conseguiu aprovação no teste final e percebeu que atingiu o máximo de aproveitamento em tempo e paciência? Ou era apenas uma frase que ele fala em voz alta todos os dias para lembrar-se e incentivar-se a continuar o caminho? E olha que o caminho dele não foi fácil… Vai ver ele precisava fazer isso porque não tinha avó para levar biscoitinhos e chá.

De qualquer forma, o que importa não é nos tornarmos paciente, mas estarmos preparados o suficientes para compreender o que isto significa.